Crônicas

O dia em que não havia mais nada pra sonhar

Olhou para o lado e não havia mais árvores…

Olhou para cima e, o céu cinza, cheio de fumaça, impedia qualquer ser vivente de ver o sol!

Olhou para o outro lado e… não havia mais água!

Resolveu caminhar entre pedras e destroços, cascalhos, plásticos, objetos já sem valor algum.

E havia no chão coisas que nunca foram usadas, sacolas e mais sacolas de todas as cores e espessuras. Sacolas cinzas, sacolas verdes, sacolas transparentes…

Caminhou por um bom tempo sem ver vegetação alguma!

Caminhou por um bom tempo sem ver água corrente!

Depois de tanto caminhar, sentou-se perto de um veículo abandonado. Não sabia nem o porquê de estar ali! Qual era seu nome e sua história? Não sabia de nada!

Sabia apenas que tinha fome e que tinha sede…

Viu que usava um casaco de muitos bolsos e resolveu procurar nos últimos e óbvios espaços!

Tirou de um dos bolsos algumas notas! Era dinheiro! Disso sabia! Disso se lembrava! E lembrava que comprava muitas coisas com o dinheiro!

A fome apertava e a sede aumentava!

Num gesto rápido, colocou as notas na boca, mastigando cada pedaço e engolindo os valores que nela se estampavam. Cinco. Dez. Vinte.

A única coisa que pode fazer foi chorar. Soluçar…

Depois de tudo, adormeceu seu último sono e não sonhou mais porque não havia mais nada para sonhar!

Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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